Resenha (com spoilers)
RAW
A METÁFORA DO CANIBALISMO
Antropologia e psicanálise
Raw (2016), escrito e dirigido por Julia Ducournau, é do
tipo que só entendedores entenderão as nuances e a profundidade do tema ali
tratado. Neste filme, para quem toma o canibalismo como metáfora, e é a única maneira de abrir as portas que esse filme tenta propor, Raw nos dá um exemplo de mal estar na civilização, em que: A
satisfação irrestrita de todas as necessidades se apresenta como a maneira mais tentadora de conduzir a vida, mas
significa pôr o gozo à frente da cautela, trazendo logo o seu próprio castigo.
(Freud, 1930). Ali vemos ainda como um tabu é capaz de estruturar
o comportamento social, ou melhor, como a falta dele pode
desestruturá-lo.
É possível assistir Raw como um antropólogo olhando pro comportamento da protagonista com olhos de quem vê algo de outra cultura, mas daí sou obrigada a citar Viveiros de Castro: O que toda experiência de uma outra cultura nos oferece é a ocasião para se fazer uma experiência sobre nossa própria cultura. (Matafísicas Canibais).A crueza do que é humano
Uma história que poderia ser vista como um caso suis generis, daqueles que saem nos jornais de vez em quando e que são contados por gerações em certas cidades que transmitem oralmente os horrores que já viram, Raw incomoda.
Traz, Justine, uma jovem, "carne fresca" em uma faculdade de veterinária. Bich(x)o, como dizemos aqui, e essa denominação é de boa serventia neste caso.
Como em diversas faculdades, o trote é um ritual de passagem que recebe o novato naquele núcleo. Em Raw, o trote, além de privar os bixos de qualquer conforto, retirando-se deles edredons e colchões, é feito também com um banho de sangue de alguns animais e com a ingestão de um pequeno órgão de outros. Nada fácil para uma vegetariana. (E logo entenderão a necessidade dessa escolha alimentar pela protagonista).
A peculiaridade do evento é que a irmã mais velha de Justine é da turma de veteranos que recebe os bixos e também é vegetariana, como os pais delas, no entanto, já inserida neste universo dos alunos de veterinária, um universo cheio de experimentações, em nada se inibe de provocar a irmã.
A história vai se apresentando sem muitas explicações ou subentendimentos. A coisa toda se passa ao espectador de forma crua.
De uma maneira visceral, após experimentar carne crua pela primeira vez, Justine tem uma forte reação alérgica, passa por um processo que é uma verdadeira troca de pele, e depois passa a enfrentar o que parece uma sanha voraz pelo orgânico. Sentindo apetite por carnes cruas, mas tendo como predileta a humana.
A jovem garota que parecia até então inocente, pura, sem mácula, não iniciada na fome, no desejo, toma outra forma.
De uma forma incômoda, Raw coloca a crueza dos desejos humanos. Incômoda justamente porque podendo ser parte, porque podendo estar dentro, porque possível em nós.
Tudo ocorre em Justine não em outros alunos, pois, sem o tabu do canibalismo, ela não tem a lei, foge às regras sociais e inicia um comportamento de outra espécie. Como um bicho, passa a ignorar quaisquer limites e faz o que tem vontade. Beija, morde, transa, arranca agressivamente pedaços, como se não tivesse sido criada na sociedade, na civilização. Deixa-se levar pela crueza de seus impulsos.
Age como o bebê em plena fase oral canibal, precisando engolir o outro para introjetar aspectos que formarão seu Eu, sua identidade, tão incerta neste ensaio de início de vida adulta.
O pensamento psicanalítico é sempre capaz de tornar compreensível aquilo que parece irracional. Este filme inaugural de Ducournau, que parece retomar a discussão nature x nurture, ilustra como nosso inconsciente tem conteúdos que ao longo do processo de aculturação precisaram ser reprimidos, mas permanecem lá, e podem irromper em certas circunstâncias.
Age como o bebê em plena fase oral canibal, precisando engolir o outro para introjetar aspectos que formarão seu Eu, sua identidade, tão incerta neste ensaio de início de vida adulta.
O pensamento psicanalítico é sempre capaz de tornar compreensível aquilo que parece irracional. Este filme inaugural de Ducournau, que parece retomar a discussão nature x nurture, ilustra como nosso inconsciente tem conteúdos que ao longo do processo de aculturação precisaram ser reprimidos, mas permanecem lá, e podem irromper em certas circunstâncias.
A transgeracionalidade do não dito - o segredo familiar
O pai delas, também veterinário, em certo momento, ao comentar o fato corriqueiro de um cachorro que mordera uma criança, emite a opinião técnica de que um cachorro que experimenta a carne humana deve ser sacrificado.
Em outro momento, Justine toma conhecimento de um segredo familiar: seu pai, enquanto abre a camisa para mostrar marcas de mordidas, conta que a mãe delas tenta manter um certo controle, tenta não passar de um certo limite, morde, arranca pedaços dele, mas não o mata.
Elas ainda não sabem esse limite, a irmã de Justine chega a ser presa por matar um rapaz ao comer parte da perna dele, em pleno estado de transe que a voracidade do momento traz a ela.
O vegetarianismo adotado pela família serve paliativamente de regra moral para tentar limitar aquilo que corre solto dentro delas, o impulso voraz pela carne humana. É o sacrifício feito pela família que tenta viver sob as regras sociais.
Elas ainda não sabem esse limite, a irmã de Justine chega a ser presa por matar um rapaz ao comer parte da perna dele, em pleno estado de transe que a voracidade do momento traz a ela.
O vegetarianismo adotado pela família serve paliativamente de regra moral para tentar limitar aquilo que corre solto dentro delas, o impulso voraz pela carne humana. É o sacrifício feito pela família que tenta viver sob as regras sociais.
Apesar de parecer um filme sobre canibalismo, e muitas resenhas foram feitas com essa concretude, Raw é um filme que apresenta o canibalismo representando a satisfação de tudo o que é desejo, sem freios, sem tabus, sem regras sociais, sem lei. E o sacrifício mostrado exatamente como é, insuficiente.
A antropologia e a psicanálise já nos ensinaram o preço que pagamos para viver em sociedade.

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