Afetar-se pela impotência que a compulsão à repetição do outro nos suscita serve de chave interpretativa para a quebra da própria repetição. E é porque há transferência que isso se dá.
A angústia de dar-se conta da compulsão à repetição pode ser devastadora. O sujeito sente-se preso dentro de si mesmo, tendo sempre uma atitude que não desejava ter, fazendo algo como se não estivesse no comando de si.
Lidar com as próprias repeticões envolve uma tentativa, ora frustrante, ora bem sucedida, de domar um animal selvagem. E o paciente precisa saber disso. Esse saber alivia, faz com que ele não sinta a impotência em tempo integral. Pois se ele se exige apenas sucessos, êxitos, ao lidar com suas repetições, certamente cairá em desespero, desesperança quanto a si mesmo.
Mas o conhecimento, neste caso, não liberta, não é tudo. Saber que ele vai oscilar nas frustrações e satisfações em relação ao domínio de si não diminui muito a angústia. Esse saber não basta.
É aí mesmo onde Freud se viu diante da descoberta de que não bastava trazer para a consciência conteúdos inconscientes, saber deles. Algo continuava agindo contra o paciente, algo da ordem da repetição incontrolável.
Eliminar, resolver a angústia é impossível, possível é diminuí-la, ressignificar ou conduzir para outros destinos a libido e o significado envolvidos ali. E para ressignificar e facilitar a destinação diferente do sempre mesmo lugar da libido envolvida na compulsão à repetição é necessária a boa transferência, a escuta que permita ver possibilidades, o vínculo que possa salvar espaços criativos.
O esforço é conjunto. Esforçam-se analista e paciente na busca e na invenção de novos sentidos. O paciente tentando vez ou outra abrir mão do gozo, o analista tentando abrir a porta certa por onde a libido possa passar, se ligar.
Capturados pela frustração muitas vezes, ambos pacientes com o processo. Pacientes na travessia, no percurso. Confiando naquele vínculo com potencial transformador, tendo o desejo de mudança como força motriz que resiste à sucumbir ao eterno retorno do mesmo.
Seria o desejo de mudança a única fonte de angústia? É possível aceitar tudo que se é, com as angústias e repetições? É possível trocar a angústia de ser como é pela angústia de mudar? Pagar esse preço?
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